Evolução da gravidez de pacientes com antecedente de cirurgia bariátrica


Outcome of pregnancy in patients with a history of bariatric surgery


Marcela Aguiar Reis Clínica Bem ViverAutor responsável e informações para contato: Marcela Aguiar Reis; Médica Residente de Obstetrícia e Ginecologia no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) – “Francisco Morato de Oliveira” (FMO). E-mail: marcela.ginecologia@gmail.com.  Endereço: Avenida Onze de Junho, 625, ap. 15, CEP 04041-052. Telefone: (11) 97206-4406.

Coautores: 1. Dra. Maria Luiza Toledo Leite Ferreira da Rocha; 2. Dr. José Eduardo Gobbi Lima; 3. Dr. Umberto Gazi Lippi; 4. Dra. Raquel Martins Arruda; 5. Dr. Reginaldo Guedes Coelho Lopes.

1. Doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública de Universidade de São Paulo (USP) e preceptora do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) – “Francisco Morato de Oliveira” (FMO).

2. Mestre em Obstetrícia pelo Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) – “Francisco Morato de Oliveira” (FMO) preceptor do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) – “Francisco Morato de Oliveira” (FMO).

3. Doutor em Obstetrícia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e chefe da seção de Obstetrícia do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) – “Francisco Morato de Oliveira” (FMO).

4. Doutora em Ginecologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e preceptora do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) – “Francisco Morato de Oliveira” (FMO).

5. Doutor em Ciência da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) – “Francisco Morato de Oliveira” (FMO).

Instituição: Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo – “Francisco Morato de Oliveira”; Endereço: Rua Pedro de Toledo, 1800; Telefone: (11) 4573-8000.



 RESUMO: OBJETIVO: Analisar a evolução e os resultados perinatais das gestações de pacientes com antecedente de cirurgia bariátrica atendidas no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo – “Francisco Morato de Oliveira”  no período de fevereiro de 2010 a fevereiro de 2014. MÉTODOS: Estudo retrospectivo, de análise quantitativa de dados de prontuários de 20 gestantes que foram previamente submetidas à cirurgia bariátrica como tratamento de obesidade. RESULTADOS: A idade média das pacientes foi de 31 +/- 2,8 anos. O Índice de massa corpórea médio das mesmas foi de 28,62 +/- 3,43 Kg/m2 e 31,32 +/- 2,49 Kg/m2, respectivamente, na primeira e na última consulta pré-natal. Do total, sete pacientes apresentavam comorbidades prévias, tais como: hipertensão crônica, diabetes mellitus tipo 2, hipotireoidismo, asma brônquica e gastrite enematosa leve. Apenas uma gestante era tabagista. Durante a evolução da gestação, 20% das pacientes necessitaram de internação, duas destas por pielonefrite, uma por trabalho de parto prematuro e uma última por anemia ferropriva grave. O peso médio observado dos recém-nascidos foi de 3162,5 g. Os escores de Apgar no primeiro e quinto minuto foram entre sete e dez para todos os recém-nascidos. Nenhum deles apresentou malformações ou outras doenças ao nascimento. CONCLUSÃO: A cirurgia bariátrica aparentemente não compromete o desenvolvimento fetal intrauterino, apesar de possível desnutrição materna induzida pela cirurgia. Entretanto, investigações adicionais são necessárias para se estabelecer recomendações apropriadas com relação ao seguimento pré-natal.

PALAVRAS-CHAVE: Obesidade. Obesidade mórbida. Cirurgia bariátrica. Gravidez. Peso ao nascer.


ABSTRACT: OBJECTIVE: To analyze the evolution and the perinatal outcomes of pregnancy in patients undergoing bariatric surgery who underwent the prenatal care and delivery at the Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo – “Francisco Morato de Oliveira” between february 2010 to february 2014. METHODS: Retrospective study, quantitative analysis of data from medical records of 20 women who had previously undergone bariatric surgery as a treatment for obesity. RESULTS: The mean age of patients was 31 +/- 2, 8 years. The average Body mass index were 28, 62 +/- 3, 43 Kg/m2 and 31, 32 +/- 2, 49 kg/m2 in early pregnancy and last visit, respectively.  Seven patients had comorbidities in early pregnancy, as chronic hypertension, diabetes mellitus type 2, hypothyroidism, bronchial asthma and gastritis. One pregnant woman was a smoker. During pregnancy, 20% of patients required hospitalization for treatment of pyelonephritis (n=2), for preterm labor (n=1) and for severe iron deficiency anemia (n=1). The average weight of newborns was 3162, 50 g.  The Apgar scores at one and five minutes were good (between 7 and 10) for all newborns. None of them had malformations or other diseases at the time of birth. CONCLUSION: Bariatric surgery apparently doesn’t compromise the intrauterine fetal development despite possible maternal malnutrition. However, further investigations are required to establish appropriate recommendations regarding prenatal care.

KEYWORDS: Obesity. Morbid obesity. Bariatric surgery. Pregnancy. Birth weight.

 


INTRODUÇÃO

A obesidade é uma doença crônica, multifatorial, que apresenta como origem elementos sociais, comportamentais, ambientais, culturais, psicológicos, metabólicos e genéticos.(1) Tem atingido proporções epidêmicas em nível mundial, em 2015 mais de 700 milhões de adultos serão obesos. (2)

O rápido aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade representa um importante problema de saúde pública. (3) É verificado, inclusive, em países em desenvolvimento como o Brasil, onde, na população de 20 ou mais anos de idade, cerca de 40% da população feminina apresentava sobrepeso. (4)

O National Institute of Health usa o Índice de massa corpórea (IMC) ≥ 25 kg/m2 para definir sobrepeso, o IMC ≥ 30 kg/m2 para definir obesidade e o IMC entre 30 e 35 kg/m2 para caracterizar obesidade grau I. A obesidade mórbida é caracterizada pelo IMC ≥ 40 kg/m2 ou IMC ≥35 kg/m2 associado à comorbidades como hipertensão, diabetes tipo 2, aterosclerose, apneia do sono e osteoartrite. (5)

A gestante obesa é uma paciente de alto risco pela dificuldade em garantir a boa evolução da saúde materno-fetal, uma vez que apresenta maior predisposição para o desenvolvimento de várias complicações, como síndromes hipertensivas, diabetes pré-gestacional (tipo 2), diabetes gestacional, macrossomia fetal, distócia do biacromial, pós-datismo, gestação múltipla, infecção urinária, anomalias congênitas, defeitos do tubo neural, óbito fetal, parto cesariano, complicações anestésicas, maior perda sanguínea no parto, maior tempo operatório, infecção da cicatriz cirúrgica e endometrite. (6-8)

A cirurgia bariátrica é uma importante forma de tratamento para a obesidade mórbida refratária à terapia médica habitual, resultando em perda de peso excessivo maior que 60%. Associa-se a resolução completa de várias comorbidades, em torno de dois anos após o procedimento cirúrgico, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. (9) Entretanto, as alterações nutricionais determinadas pelo by-pass gástrico são relevantes. (10)

A rápida perda de peso inicial após a cirurgia bariátrica pode promover déficits nutricionais, que podem causar problemas, tanto para a gestante quanto para o desenvolvimento fetal. Devido a esses riscos, a maioria dos autores tem recomendado que as mulheres submetidas à cirurgia bariátrica aguardem pelo menos 12 a 18 meses para engravidar. (11)

Existe uma preocupação com relação à subnutrição da mãe ou do feto. Deficiências nutricionais de ferro, ácido fólico, vitamina B12, cálcio e vitamina D decorrentes da má absorção podem ocasionar complicações fetais como nascimento prematuro, baixo peso ao nascer, hipocalcemia neonatal ou raquitismo, retardo mental e ocorrência de defeitos do tubo neural. (12, 13) Os vômitos, um dos principais efeitos colaterais das cirurgias restritivas e mal absortivas, podem ocasionar desnutrição fetal e desequilíbrio de eletrólitos. (8, 14)

Segundo o Consenso Brasileiro Multissocietário em Cirurgia da Obesidade (15), as complicações nutricionais durante a gravidez são comuns após a cirurgia bariátrica predominando um ou outro tipo de deficiência, a depender do tipo de cirurgia (restritiva, disabsortiva ou mista). A deficiência na ingestão de micronutrientes pode ocorrer, pois o jejuno proximal é o local onde são habitualmente absorvidos. Por isso, recomenda-se sua na avaliação pré-concepcional ou durante o pré-natal para o ajuste adequado e a individualização da suplementação (8).

A literatura ainda é deficiente de informações que abordem os resultados de gravidez após tratamento cirúrgico da obesidade, havendo opiniões contraditórias sobre o assunto e trabalhos científicos com casuísticas reduzidas(16,17) o que torna fundamental o desenvolvimento de pesquisas como o presente estudo que analisa a evolução e os resultados perinatais das gestações de pacientes com antecedente de cirurgia bariátrica atendidas no ambulatório de pré-natal do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (HSPE).


OBJETIVOS

Analisar a evolução e os resultados perinatais das gestações de pacientes com antecedente de cirurgia bariátrica atendidas no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo – “Francisco Morato de Oliveira” no período de fevereiro de 2010 a fevereiro de 2014.

 

MÉTODOS

Estudo retrospectivo, de análise quantitativa de dados de prontuários de gestantes que foram previamente submetidas à cirurgia bariátrica para tratamento de obesidade e realizaram o acompanhamento pré-natal e parto no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo – “Francisco Morato de Oliveira” (HSPE-FMO) no período de Fevereiro de 2010 a Fevereiro de 2014. Os dados foram comparados com os publicados na literatura, pesquisada em banco de dados Medline, Pubmed, Lilacs e Scielo, a partir dos descritores “Obesidade”, “Cirurgia Bariátrica”, “Gravidez”, “Parto” e “Peso ao Nascer”.

Foram excluídas pacientes cujos prontuários estavam com informações incompletas e aquelas cujo acompanhamento pré-natal e/ou parto não foram realizados no HSPE.

Durante o período determinado foram analisadas 32 gestantes e 20 foram incluídas no estudo. Dentre estas, cinco pacientes realizaram a cirurgia bariátrica em outros hospitais, mas o acompanhamento da gestação e o parto foram realizados no HSPE.

As variáveis utilizadas para caracterização da população do estudo foram idade no início da gestação, paridade, antecedentes obstétricos, comorbidades prévias a gestação e a técnica utilizada na cirurgia bariátrica.

A evolução da gravidez foi avaliada segundo as variáveis: IMC, ganho de peso, intercorrências e necessidade de internação.

Os dados relativos ao IMC foram obtidos por meio de valores de peso e altura, calculados pela fórmula IMC=peso (kg) /altura2 (m2), segundo as normas preconizadas pela WHO (2000).

A duração da gestação foi classificada em pré-termo: < 37 semanas; a termo: 37 a 40 semanas e seis dias; pós-termo: >= 41 semanas. (2)

Os recém-nascidos (RN) foram classificados em RN de baixo peso ao nascer, peso < 2500g; peso insuficiente quando entre 2500g e 2999g; peso adequado, quando > 3000g e macrossômico, quando > 4000g. (2)

A análise estatística dos dados foi descritiva, realizada através do cálculo de médias, desvios padrão, medianas e porcentagens, valores mínimos e máximos. Houve limitação do estudo quanto a sua análise estatística devido ao número de pacientes influenciado pelo preenchimento inadequado de alguns prontuários.

A presente pesquisa foi realizada segundo as normas do Comitê de Ética do IAMSPE, tendo sido aprovada pelo mesmo em Setembro de 2014, número 808.442, CAAE: 35027414.0.0000.5463. Devido à pesquisa ter sido retrospectiva com a análise de prontuários e sem riscos, a mesma foi isenta do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

A idade média das 20 pacientes atendidas durante o período em estudo foi de 31 anos +/- 2,8.   A mais jovem tinha 23 anos e a mais idosa, 45 anos no início da gestação. Apenas duas pacientes (10%) tinham mais de 40 anos ao iniciar o acompanhamento pré-natal.

Quanto aos antecedentes obstétricos, 35% das pacientes eram primigestas, 30% secundigestas, 30% tercigestas e apenas uma (5%) era quartigesta.

Dentre as 20 pacientes, sete apresentavam comorbidades prévias à gestação. Do total, três eram hipertensas crônicas (15%), sendo que uma apresentava diabetes mellitus tipo 2 associado. Uma apresentava hipotireoidismo, outra tinha asma brônquica e uma última, gastrite enematosa leve. Uma gestante era tabagista. Nenhuma destas apresentou complicações relacionadas a estas comorbidades durante o acompanhamento pré-natal e parto.

O tempo médio entre a realização da cirurgia bariátrica e a gravidez foi superior a três anos (3,5 +/-2anos). O menor intervalo observado foi de seis meses e o maior de 11 anos. A média de tempo decorrido entre a cirurgia e a gravidez foi de 7,6 anos. Todas as gestações avaliadas foram a primeira após a realização da cirurgia bariátrica.

Dentre as pacientes analisadas, cinco não realizaram a cirurgia bariátrica no HSPE e não foi possível avaliar o tipo de cirurgia realizada nem o IMC que indicou o tratamento. Todas as outras 15 pacientes tinham IMC >= a 40 kg/m2 para a realização da cirurgia bariátrica. O IMC destas mulheres anterior à cirurgia descrevia 100% de obesidade grau III e todas foram submetidas à gastroplastia em Y-de-Roux (cirurgia de Fobi-Capella).

 No início do pré-natal, 20 % das pacientes (n=4) apresentavam IMC normal, 45 % apresentavam sobrepeso (n=9), 25% apresentavam obesidade grau I (n=5) e 10 % obesidade grau II (n=2). Nenhuma paciente era obesa grau III. Baixo peso não foi observado em nenhuma gestante. O IMC médio no início da gravidez foi de 28,62 +/- 3,43kg/m2. (Tabela 1)

O ganho de peso médio durante a gestação das mulheres estudadas foi de 5,15 +/- 4,72Kg. (Tabela 1) O máximo de ganho de peso foi de 15,2 kg e duas pacientes (10%) perderam peso; respectivamente 3 kg e a 2,7 kg. O IMC médio das pacientes na última consulta antes do parto foi de 31,32 +/- 2,49 Kg/m2.

Na última consulta antes do parto, oito pacientes (40%) apresentavam sobrepeso, sete (35%) obesidade grau I e cinco (25%) obesidade grau II. (Tabela 1)

Dentre as quatro pacientes com peso normal no início do pré-natal, o ganho de peso médio durante a gestação foi de 13,25 kg; entre as nove que apresentavam sobrepeso foi de 7,77 kg. As cinco gestantes com obesidade grau I ganharam em média 3,75 kg e as duas com obesidade grau II perderam peso, em média de 2,85 kg. (Tabela 1)

O número médio de consultas de pré-natal foi de 7 +/- 1,88 com o mínimo foi de 2 e o máximo de 10. Onze (55%) realizaram seis consultas ou mais até o parto.

Durante o acompanhamento pré-natal, foram solicitados exames laboratoriais como dosagem séricas de hemoglobina, ferritina, ferro sérico, ácido fólico, vitamina B12, cálcio e vitamina D para todas as gestantes em diferentes períodos da gravidez.

Todas as gestantes fizeram uso de polivitamínicos (Materna® ou Natele®). Também foram submetidas à reposição de ferro, ácido fólico, vitamina D (Depura® ou Aderogil®), vitamina B12 (Citoneurin®) e cálcio quando necessário.

O acompanhamento foi multidisciplinar com pelo menos dois profissionais de outras áreas como gastrocirurgia, endocrinologia, nutrição e/ou psicologia a depender da necessidade.

O rastreio do diabetes gestacional foi realizado com dosagem de glicemia de jejum (GJ) em 20% (n=4) das pacientes, com GJ e hemoglobina glicada (HbA1c) em 15% (n=3) das pacientes, com teste oral de tolerância a glicose com sobrecarga de 50g (GTT) em 25 % (n=5) das pacientes e com teste oral de tolerância a glicose com sobrecarga de 100g (GTT) em 10 % (n=2) das pacientes. Em 30% dos casos (n=6) não havia dados no prontuário sobre este rastreio.

Quatro pacientes (20%) necessitaram de internação durante a gestação, duas por pielonefrite, outra por trabalho de parto prematuro e uma última por anemia ferropriva grave para realização de hemotransfusão. (Tabela 2)

Dentre as intercorrências sem necessidade de internação, observaram-se duas pacientes com anemia, vômitos em uma e outra apresentou diarreia persistente. Hipertensão materna foi observada em três pacientes e diabetes gestacional em uma. (Tabela 2)  

Nascimentos pré-termo (menor que 37 semanas) foram observados em 5% das gestações (um parto) e nascimentos a termo (entre 37 e 40 semanas e seis dias) em 95% das gestações. Cinco partos ocorreram após 40 semanas e nenhum ocorreu com mais de 41 semanas. (Tabela 3)

O parto normal ocorreu em 12 casos (60%) e parto cesariano em oito (40%). As indicações das cesarianas foram: prolapso de cordão, sofrimento fetal, iteratividade, parada da dilatação, doença hipertensiva específica da gestação leve (não diagnosticada durante o pré-natal) e em dois prontuários não havia dados sobre a indicação do procedimento. (Tabela 3)

As gestações resultaram em dez recém-nascidos (50%) de peso normal, 10% (n=2) com baixo peso ao nascer e em 40% (n=8) o peso foi insuficiente (entre 2500 e 2999g). (Tabela 4)

Os escores de Apgar no primeiro e quinto minuto foram entre sete e 10 para todos os recém-nascidos. (Tabela 4) Nenhum dos recém-nascidos apresentou malformações ou outras doenças ao nascimento.

No período intraparto e puerperal, três pacientes apresentaram complicações, como: retenção de restos placentários, trombose venosa profunda e lesão de alça intestinal. A paciente que apresentou restos placentários evoluiu com atonia uterina e foi submetida à curetagem uterina. A que apresentou trombose em membro inferior realizou tratamento medicamentoso e acompanhamento com equipe da cirurgia vascular. A lesão de alça foi corrigida com enterectomia segmentar no intraoperatório. Todas evoluíram bem e tiveram alta hospitalar sem outras intercorrências.

 

DISCUSSÃO

No presente estudo a baixa frequência de comorbidades prévias observada nas pacientes analisadas é concordante com estudos que afirmam que a perda de peso melhora a prevalência de doenças. (18)

O IMC médio na primeira consulta do pré-natal (28,62 +/- 3,43Kg/m2) das pacientes do presente estudo foi inferior ao das pacientes pesquisadas por Sheiner et al (16) (IMC médio de 30,6 +-6,3Kg/m2). O ganho de peso médio (5,15 +/- 4,72Kg) durante a gestação das mulheres atendidas no HSPE também foi inferior. Tal verificação pode explicar a baixa incidência de complicações durante o acompanhamento pré-natal e o parto. Isto também pode se relacionar à qualidade do acompanhamento pré-natal ou ao planejamento da gravidez.

As duas pacientes que perderam peso durante a gestação, tiveram o parto a termo, e um dos recém-nascidos apresentou baixo peso ao nascer (<2500g). Isto pode estar relacionado à perda de peso além de possíveis carências nutricionais.

A espera de pelo menos 12 a 18 meses para engravidar tem sido aconselhada às mulheres depois da cirurgia bariátrica, visando evitar complicações nutricionais durante a gestação e o insucesso na perda de peso. (11) No presente estudo, duas pacientes não seguiram esta orientação e engravidaram antes deste período. Uma delas apresentou perda de peso durante a gestação, o RN teve peso adequado, a termo, e não houve complicações durante o pré-natal e parto. Provavelmente esta perda de peso ocorreu devido ao pequeno intervalo entre a cirurgia bariátrica e a gravidez.

Os procedimentos bariátricos podem ocasionar problemas disabsortivos, como deficiências de vitaminas, herniações e torções intestinais. (19) Provavelmente, como consequência deste tratamento cirúrgico, três apresentaram anemia ferropriva. Dentre as duas tratadas ambulatorialmente, uma delas teve parto cesariano, pré-termo (35 semanas e 5 dias de IG), indicado por sofrimento fetal agudo e o peso do RN foi 2505 g. 

Apenas uma necessitou de internação para realização de hemotransfusão. Na pesquisa de Dao et al (18), a deficiência de ferro durante a gravidez foi encontrada em apenas uma paciente de um total de 34 estudadas. Outra pesquisa descreve a ocorrência de anemia em um número maior de gestações pós-cirurgia bariátrica, com hemoglobina abaixo de 10g/dl (16). Nenhum caso de anemia grave foi descrita em outra pesquisa. (11)

A frequência de vômitos foi superior à de grávidas sem antecedentes de cirurgia bariátrica (duas a cada 1000 gestações), fato que pode incrementar os riscos à mãe e ao feto. (2)

A ocorrência de cesárea em mulheres que engravidaram após cirurgia bariátrica, num estudo populacional realizado por Sheiner et al (16), foi maior do que na população em geral, sendo considerado o antecedente de cirurgia bariátrica fator de risco para cesariana (p<0,001).  Neste estudo, a maioria das pacientes tiveram parto operatório por indicações diversas, incidência esta considerada alta se comparada com a taxa de preconizada pela WHO. (2)

O peso ao nascimento varia de acordo com a idade gestacional, o estado nutricional e hidroeletrolítico materno e do RN, sendo considerado o gold standard na avaliação do crescimento perinatal. (20) Os dois recém-nascidos com baixo peso observados neste estudo nasceram a termo. Índices menores de baixo peso ao nascer após cirurgias restritivas e mal absortivas foram descritos por outros autores. (16) No presente estudo, esta taxa foi menor.

Os nascimentos pré-termo registrados nesta pesquisa assemelham-se a tendência da população em geral e aos observados na pesquisa de Sheiner et al. (16)

Em outro estudo, de 34 pacientes que engravidaram após a realização de cirurgia bariátrica, 33 delas tiveram as gestações a termo, sendo que apenas uma gravidez gemelar foi até 35 semanas de gestação. Todos os RN nasceram saudáveis, mesmo com as gestações tendo ocorrido antes de um ano de pós-operatório. (18) Tais verificações se assemelham aos resultados do presente estudo quanto à alta porcentagem de gravidez de termo e RN sadios.

Em estudo de série de cinco casos de RN de mães que engravidaram após a cirurgia bariátrica (20), observaram três óbitos e sequela neurológica em duas crianças, sugerindo, apesar do número pequeno de casos, a forte associação destes com a restrição alimentar e má absorção consequentes à técnica de by-pass em Y de Roux. Todos os RN do presente estudo nasceram com os escores de Apgar bons (7-10) e apenas dois, com baixo peso ao nascer. Não houve nenhum óbito e nenhuma criança com sequela neurológica ou má formação.

Não foi diagnosticado nenhum caso de diabetes gestacional. É possível que isto se deva ao fato da orientação nutricional ter sido realizada para todas as gestantes analisadas. A monitorização rigorosa do consumo dietético e individualizado traz benefícios à paciente. Nesse sentido, o seguimento com equipe multidisciplinar e especializada proporciona melhor adaptação da paciente à dieta. (8,19) Entre as pacientes estudadas, a maioria foi acompanhada por nutricionista e/ou endocrinologista.

Desde que com acompanhamento adequado, controle nutricional e pré-natal eficientes e suplementação vitamínica orientada, a gravidez após cirurgia bariátrica tem se mostrado segura tanto para a mãe quanto para o RN. (8) Apesar de algumas gestantes terem apresentado quadros de anemia e perda de peso, aparentemente não houve comprometimento do RN, no presente estudo.

Alguns incrementos no atendimento pré-natal destas gestantes incluem a solicitação rotineira de exames tais como: hemograma completo, ferritina, vitamina B12, tiamina, ácido fólico, cálcio e vitamina D. Quando identificadas as deficiências, estas devem ser corrigidas e monitoradas mensalmente ou pelo menos, trimensalmente.

No que diz respeito ao acompanhamento pré-natal, observou-se uma média de consultas superior à recomendada (seis ou mais). Isto demonstra uma boa qualidade no atendimento e uma valorização do pré-natal das gestantes com antecedente de cirurgia bariátrica no HSPE com a motivação das mesmas pelas equipes da obstetrícia, gastrocirurgia, endocrinologia e nutrição.

 

CONCLUSÃO

A gestação após gastroplastia é segura para o binômio materno-fetal. Apesar de possível desnutrição materna induzida pela gastroplastia, a cirurgia bariátrica aparentemente não compromete o desenvolvimento fetal intrauterino.

O estudo apresentou limitações relacionadas ao número de pacientes estudadas. Diante disto, investigações adicionais são necessárias para se estabelecer, com mais segurança, recomendações com relação ao seguimento dessas gestações.

 

 

REFERÊNCIAS

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TABELAS


Tabela 1. Ganho de peso segundo Índice de massa corpórea das gestantes com antecedente de cirurgia bariátrica, acompanhadas no Hospital do Servidor Público Estadual no período entre fevereiro de 2010 e fevereiro de 2014.

IMC na primeira consulta*

N

%

Ganho médio de peso na gestação

Peso normal

4

20

   13,25±

Sobrepeso

9

45

    7,77±

Obesidade Grau I

5

25

    3,75±

Obesidade Grau II

2

10

   -2,85±

Média

 

 

   5,15±

Desvio

 

 

   4,72±

TOTAL

20

100


         






Tabela 2. Intercorrências ocorridas durante o pré-natal do Hospital do Servidor Público Estadual das gestantes com cirurgia bariátrica prévia no período entre fevereiro de 2010 e fevereiro de 2014.

Variáveis

N

%

Internações



Sim

4

20

Não

16

80

Motivos das internações



Pielonefrite

2

10

Anemia

1

05

Trabalho de parto prematuro

1

05

Não houve

16

80

Intercorrências sem internações



Anemia

2

15

Vômitos

1

5

Diarreia

1

5

Hipertensão materna

3

5

Diabetes

1

5

Sem intercorrências

12

60

TOTAL

20

100



Tabela 3. Evolução obstétrica das pacientes com antecedente de cirurgia bariátrica, acompanhadas no Hospital do Servidor Público Estadual, no período entre fevereiro de 2010 e fevereiro de 2014, segundo o parto.

Variáveis

N

%

IG do parto



< 37 semanas

1

5

37-40 semanas

19

95

≥ 41 semanas

0

0

Média (Desvio) = 39,29 (1,04)



Tipo de parto



Cesário

8

40

Normal

12

60

TOTAL

20

100







Tabela 4. Evolução perinatal dos Recém-nascidos das gestantes com antecedente de cirurgia bariátrica e atendidas no Hospital do Servidor Público Estadual no período entre fevereiro de 2010 e fevereiro de 2014.

Variáveis

N

%

Peso do Recém-nascido



Baixo peso (< 2500g)

2

10

Peso insuficiente (2500-2999g)

8

40

Peso normal (≥3000g)

10

50

Média = 3162,50g



Escore Apgar



Primeiro minuto



0-3

0

0

4-6

0

0

7-8

8

40

9-10

12

60

Quinto minuto



0-3

0

0

4-6

0

0

7-8

0

0

9-10

20

100

TOTAL

20

100